Iara relata que havia 'crime de opinião' na época da ditadura

Sexta-feira, 28 de Março de 2014 - Última alteração em 28/03/2014 às 00:00
fonte:  Imprensa SMetal
Foguinho/Imprensa SMetal
Audiência pública nesta sexta foi a primeira atividade da recém-instalada Comissão Municipal da Verdade de Sorocaba
Audiência pública nesta sexta foi a primeira atividade da recém-instalada Comissão Municipal da Verdade de Sorocaba
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Audiência pública nesta sexta foi a primeira atividade da recém-instalada Comissão Municipal da Verdade de Sorocaba
Audiência pública nesta sexta foi a primeira atividade da recém-instalada Comissão Municipal da Verdade de Sorocaba

Até o final da ditadura militar no Brasil, a manifestação de opinião era duramente reprimida, mesmo que os autores fossem parlamentares eleitos pelo povo. Durante a primeira audiência pública da Comissão Municipal da Verdade, na manhã desta sexta-feira, 28, os ex-vereadores pelo PT em Sorocaba, Iara Bernardi e Oswaldo Noce, relataram episódios na própria Câmara, no início dos anos 80, que comprovam o autoritarismo do período.

Hoje deputada federal, Iara contou que o fato de discordar das diretrizes do regime militar era considerado "crime de opinião" e ela foi expulsa do plenário da Câmara várias vezes, mesmo sendo vereadora, por se opor à Mesa Diretora da Casa, que seguia as orientações da ditadura.

Oswaldo Noce, companheiro de bancada de Iara, chegou a ser retirado à força da Câmara quatro vezes pela Polícia Militar em 1984 por expressar suas opiniões. "Eu só não fui levada também porque não havia polícia feminina na Câmara e os policiais não ousaram tocar em mim", afirmou a deputada.

Também presente à audiência, a jornalista Fernanda Ikedo, autora de um livro e um videodocumentário sobre o período, conta que é possível encontrar provas, nos arquivos do Estado, de que os agentes do regime se infiltravam em assembleias sindicais e reuniões de estudantes até meados dos anos 80. "Há fichas do Dops [o extinto Departamento de Ordem Pública e Social] que reportam hábitos, locais e discursos de sindicalistas, estudantes e outros militantes até 1985".


Lista negra

O ex-sindicalista metalúrgico e hoje deputado estadual Hamilton Pereira (PT) se emocionou ao contar que, devido à sua militância foi demitido da fábrica e passou por necessidades com sua família em Sorocaba porque na época existia uma "Lista Negra", onde constavam nomes de militantes que não deveriam ser contratados pelas empresas.

Com a voz embargada, Hamilton contou que só conseguiu um novo emprego, em São Paulo, no setor ferroviário, porque teve a ajuda de dois militantes de esquerda veteranos de Sorocaba, Brasil Mirim e Francisco Gomes.

Torneiro mecânico experiente e com bom nível de instrução, Hamilton passou mais de dois anos pregando dormentes e trilhos na malha ferroviária paulistas antes de voltar para o setor metalúrgico. Mas, mesmo no período de sacrifícios, o atual parlamentar encontrou disposição para militar como professor, ele dava aulas noturnas de alfabetização para que 20 "companheiros de trecho" pudessem ter condições de se candidatar a cargos melhores na ferrovia.


Os anos de chumbo

Mas se a perseguição e a espionagem contra militantes ainda existiam na fase final da ditadura militar, nos "anos de chumbo", décadas de 60 e 70, os riscos eram de prisão por prazo indeterminado, tortura, desaparecimento, exílio ou morte.

O ex-líder sindical ferroviário Francisco Gomes, o Chico Gomes, ressaltou que a Comissão da Verdade representa muito "para o processo que estamos vivendo e nos tira do vexame e do constrangimento em relação a outros países que já se confrontaram com seus passados, como é o caso do Chile e da Argentina".

Chico, que militou na Ação Libertadora Nacional (ALN), foi obrigado a procurar exílio em Cuba nas décadas de 60 e 70 para não ser pego pela repressão. Acabou passando 15 anos no exílio. "Não havia nenhuma intenção em me prender, era para me matar mesmo", contou.

Em seu depoimento, Chico também expôs a situação de décadas anteriores aos anos 60. "Que direitos nós tínhamos? Os sindicalistas eram constantemente ameaçados de morte. Para se lutar por um pedaço a mais de pão ia preso".
O Sindicato dos Ferroviários era um dos mais organizados e combativos, e por isso mesmo perseguido, de Sorocaba e do Brasil no período. No mesmo nível de atuação estava o Sindicato dos Têxteis da região de Sorocaba, outra categoria profissional muito forte até os anos 70.


Atuação com os operários

O professor e pesquisador Aldo Vannucchi, ex-reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso), relatou sua prisão em Sorocaba, em abril de 1964, quando era padre e ficou detido por 10 dias por ter sido mencionado em uma ata de reunião do Partido Comunista.

No intuito de compreender o passado para se ter uma coerência com o presente - e traçar novos rumos para o país- Vannucchi comentou que sempre teve a preocupação de fazer o sermão, enquanto padre, afirmando a missão do cristão de ser fermento da construção da paz, que só se pode se constituir pela justiça.

Sobre a resistência operária na cidade, Aldo relata: "é preciso que os sorocabanos saibam o que foi a Companhia Nacional de Estamparia, a Cianê. Na febre da exportação para a Europa nadava em ouro e em sangue. Este dos trabalhadores que trabalhavam todos os dias, inclusive sábado e domingo e feriados". Aldo também destacou a jornada exaustiva de trabalho, que se configurava além de 10 horas diárias.

No início da audiência foi exibido um trecho do documentário "Porque Lutamos", de Fernanda Ikedo, que tem como um dos personagens retratados Alexandre Vannucchi, estudante sorocabano morto pelo regime e sobrinho de Aldo.


Sobrou até para estudante

Osvaldo Noce, endossou a importância da audiência e da criação da Comissão Municipal da Verdade como um germe para se dar o devido tratamento à história do país. Noce começou seu engajamento em 1962 no movimento popular por meio do método do educador Paulo Freire.

Em 1968, no segundo dia do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (Une), em Ibiúna, Noce foi preso pela repressão junto com outros mil estudantes. Depois de quase um mês em prisão ele foi atuar clandestinamente na área rural, no interior de São Paulo.

Como recado às novas gerações ele destaca: "que a comissão cumpra o prazo estabelecido, mas que depois disso, ela seja um embrião de uma vigilância ativa para que esse passado não volte a se repetir".

A Comissão

A Comissão Municipal da Verdade é presidida pelo vereador Izídio de Brito, que também presidiu a mesa da audiência nesta sexta; tem como relator o vereador Anselmo Neto (PP), também presente ao evento hoje; e conta ainda com Saulo do Afro Arts (PRP) e Neusa Maldonado (PSDB).

A Comissão Municipal, hoje coordenada pela Câmara, foi articulada pelo Movimento Popular em Apoio à Comissão Municipal da Verdade, que tem a jornalista Fernanda Ikedo e o professor de filosofia Daniel Lopes entre seus membros.

O prazo para a comissão emitir relatório sobre suas investigações é dezembro deste ano, junto com a comissão nacional que trata do tema. Izídio afirmou na audiência que a comissão em Sorocaba vai ouvir pessoas envolvidas com o regime, reunir documentos, falar com especialistas, dialogar com a sociedade e fazer diligências de investigação para cumprir seus objetivos.

Leia também: Comissão da Verdade enviará relatório para universidades em 2015

 Imagem
Francisco Gomes, ex-ferroviário, passou quinze anos exilado no exterior devido à perseguições ( foto: Foguinho/Imprensa SMetal)

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