Comissão da Verdade: Deputado, diretor teatral e ativista cultural são ouvidos

Segunda-feira, 14 de Julho de 2014 - Última alteração em 14/07/2014 às 00:00
fonte:  Imprensa Câmara de Sorocaba
A comissão é presidida pelo vereador Izídio de Brito (PT)
A comissão é presidida pelo vereador Izídio de Brito (PT)
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A comissão é presidida pelo vereador Izídio de Brito (PT)
A comissão é presidida pelo vereador Izídio de Brito (PT)

A Comissão Municipal da Verdade "Alexandre Vannucchi Leme" realizou mais uma rodada de depoimentos na manhã desta segunda-feira (14), no plenário da Câmara de Sorocaba. Foram ouvidos o deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão Estadual da Verdade; o filósofo e ex-presidente do Gabinete de Leitura Sorocabano, Armando Oliveira Lima; e o diretor teatral Roberto Gil Camargo.

O presidente da Casa, vereador Cláudio Sorocaba I (PR), abriu os trabalhos, lembrando que, tão logo foi criada a Comissão da Verdade, colocou a Casa à disposição de seus membros. "Não basta a Comissão Nacional da Verdade, ou mesmo a Comissão Estadual da Verdade. É importante criar comissões como essa nas Câmaras para facilitar os depoimentos", afirmou o presidente da Casa, que, em seguida, passou o comando dos trabalhos ao presidente da Comissão Municipal da Verdade, vereador Izídio de Brito (PT).

O deputado estadual Adriano Diogo, que preside a Comissão Estadual da Verdade, foi o primeiro a falar. "Eu tinha 14 anos em 1963 e era do voluntariado dos Jogos Pan-Americanos e fui sorteado para acompanhar 24 horas a Seleção Cubana, com quem trabalhei durante 15 dias", relembra. "Quando entrei no curso de Geologia da USP, em 1969, o quadro era desolador, com muita gente sendo presa e indo para a clandestinidade", conta.

O depoente procurou esclarecer fatos sobre a vida do líder estudantil Alexandre Vannucchi Leme (1950-1973). "Ele entrou na Geologia da USP em 1970, como calouro; percebi que era um jovem diferenciado, muito culto, e o convidei para fazermos um panfleto sobre a questão mineral no Brasil. Ele fez um excelente trabalho, mostrando a exploração de minério em todo país, com o nome das empresas multinacionais", relata.

Segundo ele, Alexandre Vannucchi, que tinha o apelido de Minhoca entre os colegas, deveria ter ido com ele, Adriano Diogo, e outros estudantes para Diamantina, em janeiro de 1973, para fazer pesquisa sobre as minas de diamante, uma vez que se mostrara um pesquisador muito preparado intelectualmente. Mas, devido a um problema de saúde, acabou sendo hospitalizado. Segundo ele, quando o grupo voltou de Diamantina, Vannucchi, assim como o próprio Adriano Diogo, foi preso.

Alexandre Vannucchi Leme

"Convidamos o Alexandre para nos encontrarmos num restaurante espanhol no Brás. Ao me aproximar do restaurante, vi que estava completamente cercado de policiais à paisana. A casa da minha mãe também estava cercada. Eu era recém-casado e falei para a minha esposa para sairmos de casa. Ficamos dez dias fora. Então, no dia 17 de março, fui cobrir o ponto para encontrar o Alexandre; desconfiava que ele tinha sumido. Quando voltava da USP, vi um caminhão da Folha de S. Paulo em frente à minha casa, numa borracharia. Não deu outra: os policiais saíram do caminhão e, quando abri a porta, levei coronhada de metralhadora e começou a pancadaria", conta Adriano Diogo.

Adriano Diogo conta que foi levado para a Oban, na Rua Tutóia, em São Paulo, onde ficou 90 dias e viu Alexandre Vannucchi morrer na tortura, segundo ele, sob o comando do Major Tibiriçá, hoje coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. "Eles disseram que o Alexandre se suicidou no restaurante, o que era mentira, pois ele foi torturado e morto dentro da Oban", conta. Segundo ele, D. Paulo Evaristo Arns celebrou uma missa para Alexandre Vannucchi, afrontando o regime. "Por conta disso, o Major Tibiriçá retirou todos nós das celas e começou uma sessão de tortura pública, batendo em todo mundo e xingando o cardeal", afirma.

Indagado sobre o papel das diversas Comissões da Verdade instituídas no país e a articulação existente entre elas, o deputado estadual Adriano Diogo elogiou a Câmara Municipal de Sorocaba por ter instalado a Comissão Municipal da Verdade e criticou o governo do Estado de São Paulo por não ter criado uma comissão estadual como a do Rio de Janeiro, que foi criada por lei e não por resolução da Assembleia Legislativa, como a do Estado de São Paulo. "O governo de São Paulo não deu nenhuma ajuda. Já a comissão estadual do Rio pôde contratar os melhores pesquisadores das universidades, a peso de ouro", afirma.

Outros casos

Os outros dois depoentes afirmaram que não foram presos nem sofreram tortura e se limitaram a descrever a censura e a vigilância a que foram submetidos. O diretor teatral Roberto Gil Camargo faz um balanço das atividades teatrais do período, mostrando o caráter de resistência do teatro e episódios de censura vivida pelos dramaturgos. Por sua vez, o ex-presidente do Gabinete de Leitura Sorocabano, Armando Oliveira Lima, também discorreu sobre a vigilância que o regime exercia nas instituições.

A deputada federal Iara Bernardi (PT) também participou dos trabalhos, relatando as atividades do Comitê Brasileiro para a Anistia de Sorocaba, cuja documentação será colocada à disposição da Comissão Municipal da Verdade.

A Comissão da Verdade de Sorocaba é composta pelos parlamentares Izídio de Brito (PT) como presidente, Anselmo Rolim Neto (PP) como relator, e demais membros Saulo do Afro Arts (PRP) e Neusa Maldonado (PSDB). A próxima oitiva da comissão será no dia 4 de agosto, faltando definir os depoentes.

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